A “chineirização” da indústria nacional e a ética

* Tadeu Longo

A indústria nacional adotou como um dos mecanismos de competitividade e redução de custos a importação de componentes e produtos da China. Globalização, baixos custos de produção chineses e frases feitas como “fazemos como nossos concorrentes ou morremos”, “impossível competir com esses preços”, “o mercado procura preço” e “não seremos competitivos produzindo tudo no País”, seriam até compreensíveis, não fosse o que tem sido feito na pós-venda da assistência técnica.

 Tenho presenciado casos em que a “chineirização” de nossos produtos virou o ovo de Colombo para que a indústria nacional falte com a ética e o respeito aos consumidores. Produtos de empresas conceituadas têm tido constantes quebras ou problemas de funcionamento com pouquíssimo tempo de uso, o que denota falhas na linha de montagem, além de vários problemas na reposição de peças.

 As assistências técnicas, quando em garantia, são meras trocadoras de peças defeituosas enviadas pelo fabricante nacional. Começa aí uma novela, não mais mexicana, mas chinesa. Lotes inteiros de produtos são, por vezes, importados, comercializados e descontinuados após o término dos estoques. E as peças de reposição? Técnicos alegam que os produtos mudam tanto e tão rápido, que a indústria não consegue manter estoques apropriados de peças. Será essa a realidade, ou as peças de reposição nada mais são do que componentes canibalizados de unidades não vendidas?

 Aí vem à questão da ética nos negócios, pois o consumidor vem recebendo uma mensagem clara, não escrita, de que os produtos, por estarem mais baratos, mais fáceis de adquirir e rapidamente ultrapassados, devem ser descartados e não reparados. Afinal, “isso tudo vem da China”. O que esperar da indústria?

 Na década de 1980, o então governo, pensando no futuro da indústria de tecnologia, criou a controversa Lei da Reserva de Mercado da Informática. A ideia central era proteger um parque fabril nascente, evitando-se a importação de produtos de países com tecnologia mais avançada e preços mais acessíveis que os nacionais, fomentando o desenvolvimento industrial e dando fôlego para assimilar-se o conhecimento presente no exterior. Essa medida preparou o caminho para a abertura de nossas fronteiras comerciais e a chegada das grandes multinacionais, que acabaram por comprar e modernizar nosso parque industrial, tecnológico e absorver a mão de obra existente. E de lá para cá?

 Notadamente exportadores não têm problemas de qualidade com componentes chineses e em certos mercados somos tidos como referência mundial. Será que eles sabem algo que os produtores para o mercado interno não sabem? Ou será que uma parte da indústria nacional, que nos abastece com eletrônicos, informática, brinquedos e eletrodomésticos, acredita que o mercado local é de segunda linha e não investe em componentes de qualidade superior e tentam nos convencer de que “isso vem da China e é assim mesmo”?

 Globalizar e baixar custos são inevitáveis. Deixar de ser ético com nossa gente é lastimável.

 * Tadeu Longo é gerente sênior de Manufacturing Integration and Intelligence da Neoris Brasil.

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