Smart Grids para uma matriz energética mais sustentável

* Nicolau Branco

 As redes inteligentes (Smart Grids) quebram o paradigma do fornecimento de energia, ao possibilitar que os usuários das redes existentes possam não só consumir como também fornecer energia, independentemente do seu “status quo” na rede – isto é, um consumidor pode ser fornecedor e vice-versa.

 Esse conceito é viabilizado por tecnologia digital de dois sentidos, que permite detectar, medir e controlar a produção, distribuição e o consumo de integrantes da rede, que transmitem informações sobre o estado do sistema, seus operadores e dispositivos automatizados. Este controle e intercâmbio de informações permitem uma resposta dinâmica às mudanças verificadas no estado energético da rede, podendo ativar equipamentos em momentos de menor consumo, ou desligá-los em horários de pico.

 Do ponto de vista tecnológico, esse conceito é viável e promove a independência energética, além de contribuir para a redução do aquecimento global e para a diminuição do risco de apagão – uma vez que integra novos players em uma matriz energética mais capilarizada e democrática.

 Hoje, no Brasil, várias industrias já têm na energia elétrica um de seus subprodutos: por meio da tecnologia existente, “injetam” a energia na rede, tornando-a fonte de renda. Em outros mercados, existem tarifas diferenciadas para horários de pico – mas essa realidade, além de pontual e localizada, depende da consciência individual. É necessário dar o próximo passo, gerando um interesse coletivo, impulsionado por vantagens econômicas que acelerem a implementação de um sistema bidirecional e inteligente, que monitore e mantenha o controle de toda a eletricidade fluindo, otimize o consumo e possibilite a contribuição em massa de pequenos produtores de energia.

 Modernização

 Os impactos das redes inteligentes são transversais na sociedade e, a médio e longo prazo, podem produzir importantes efeitos positivos, uma vez que promovem a otimização de recursos naturais e integram os vários atores envolvidos na geração, distribuição e utilização de energia elétrica. Esse fato faz com que os governos sejam os principais motores deste conceito – a Smart Grid é um dos principais programas da administração Obama. Por meio dos organismos reguladores do setor elétrico, os governos pressionam os vários integrantes do sistema atual para modernizar e prover as condições básicas visando a implementação efetiva das redes inteligentes. Mais do que isso, os governos precisam rever e inovar os conceitos fiscais e tributários por trás da economia, de modo a tornar viável a integração de pessoas jurídicas e físicas no modelo de Consumidor/Produtor, incentivando pequenos projetos de geração de energia limpa e renovável e beneficiando os indivíduos que venham a contribuir com o modelo.

 Esta modernização implica em alguns macroprojetos, envolvendo, entre outros:

  •          Planejamento de rede e negócios.
  •          Renovação das infraestruturas de transmissão, distribuição e medição.
  •          Implementação de sistemas inteligentes de gestão da rede.
  •          Implementação de sistemas de gestão e controle da distribuição e comercialização e, ainda, de portais de cliente.

 Nossa visão

 A Neoris é uma companhia de soluções em consultoria e tecnologia especializadas nos segmentos de Utilities, Indústria, Comunicações e Serviços Financeiros – alguns dos setores que serão diretamente beneficiados pela implantação de redes inteligentes. O portfólio da Neoris inclui produtos e serviços que viabilizam as várias fases necessárias para adequar a operação dessas empresas à nova realidade do mercado, como, por exemplo, consultoria estratégica, desenvolvimento de soluções sistêmicas de billing, co-billing, medição de fronteiras, gestão empresarial, portais de clientes e Business Transformation Outsourcing.

 Acreditamos que, por meio de uma aproximação estruturada a este desafio, as companhias do setor não só vão se adaptar às regulamentações públicas como também poderão obter vantagens para o seu negócio, ao conseguir implementar estruturas e sistemas que viabilizarão a integração de clientes com a rede, de forma a normalizar o suprimento de energia e a integrar pequenos produtores de energia elétrica.

 Nesse ambiente, existem as condições necessárias para o estabelecimento de uma relação matricial entre os setores de Utilities, Comunicações e Tecnologia, por exemplo, visando a geração de valor para os envolvidos e a sociedade, estabelecendo um ecossistema auto-sustentado e viável no longo prazo, com soluções integradas de serviços em uma mesma rede física e lógica de abastecimento ao consumidor final.

 Um grande exemplo consiste na otimização dos ativos de redes de distribuição de energia elétrica para suprir a última milha de banda larga, TV paga e telefone fixo, tornando possível a entrega simultânea de múltiplos serviços ao consumidor final, gerenciados sob um único contrato, que proporcionará a redução de despesas administrativas e da inadimplência, entre outras vantagens. Essa estrutura permitirá, ainda, que pequenos produtores de energia – domésticos, comerciais ou industriais – possam  participar da matriz energética, diminuindo a dependência dos meios tradicionais e finitos de geração de energia, ao mesmo tempo em que reduzem os seus custos, gerando maior capacidade de consumo e de investimento em bens e negócios, movimentando a economia em geral e garantindo uma melhor distribuição de riqueza.

 Mais verde

 Essa integração de novos agentes geradores de energia elétrica vai contribuir para a redução dos gases de efeito de estufa, ao tornar viável a integração de energia limpa e renovável – como a solar e a eólica – proveniente de pequenos produtores, diminuindo a dependência de uma matriz energética abastecida por meios convencionais, ecologicamente incorretos e até perigosos (carvão, gás natural, nuclear e hidrelétricas), em prol de fontes sustentáveis no longo prazo.

 Para quando?

 Há um consenso entre os vários analistas de mercado de  que, na segunda década deste século, teremos  a capacidade técnica para operar sistemas inteligentes de gestão de redes de energia. Até lá, vários movimentos são necessários e barreiras precisam ser quebradas, sendo que as mais complexas são de ordem fiscal e tributária. Veremos mercados mais maduros e regulados a ter maior agilidade na implementação das Smart Grids, grandes e pequenos investimentos de todas as partes, com a garantia de uma matriz energética mais sustentável, democrática e justa, que trará muitos benefícios para o planeta, a Humanidade e para cada um de nós. Este pode ser o legado da nossa geração, uma geração que vem usufruindo das riquezas e oportunidades geradas no século 20, mas que sofre com os impactos sociais e ambientais da política do progresso a qualquer custo.

 *Nicolau Branco é Vice Presidente de Operações da Neoris Brasil.

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